sábado, 31 de maio de 2014

Consultório 1- Carmencita


Ainda guardo o seu perfume nalgumas roupas - não é fácil, seu doutor, desta dor ninguém me cura. Recordo a primeira vez que o vi -a sedução, a malícia, as armadilhas para o reter, e o tão grande amor daí nascido.
Não me deixava tarefas grosseiras; saíamos muito - festas, bares, risos, bailes - alucinados pelo céu estrelado de Sampa. Ah, como nos amávamos...
Até que a morte invejosa o levou. E eu lhe culpo tanto, tanto por isso. Culpo por ter sido tão bom. Culpo por ter me deixado amá-lo tanto. Culpo porque também me amou, me fez feliz. Culpo enfim porque me deixou...assim, do nada, sem ter combinado, no erguer do brinde, em meio ao sorriso. Morreu o amado, o ingrato.
Raiva. Amor.
Melhor que não me tivesse feito tão feliz...ou tendo morrido, melhor que tivesse partido de vez. Mas não partiu, ficou!!!
Ficou em mim intensamente. Eu que morri, resto de vida...sem espaço para outro amor que pudesse negá-lo, matá-lo, e me trouxesse de retorno a vida.
Não, ódio não, não o rancor, somente a dor continuando, doendo - como membro fantasma.
Somente o amor.
Ah, como ainda o amo!!!!!!!

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